terça-feira, 4 de dezembro de 2012

João Pé-de-Chinelo na estrada!



Reciclando Conceitos

Salve Ribeirão Preto, Manjericão na área!!





AMAZÔNIA EM CENA NA RUA

Sempre muito importante na vida dos Manjericões!!



PROGRAMAÇÃO


"Olha eu aqui... sonhando de novo!"
Márcio Silveira, palhaço Xuxuzinho em
O Dilema do Paciente
 foto Rodolfo Araújo

Ao  grupo Manjericão

Sofisticada estrutura narrativa
* Por Flavio Melo

Nesta quarta feira dia onze de novembro de 2009, tive a honra de assistir o grupo Manjericão, do Rio Grande do Sul, com a apresentação do espetáculo “O Dilema do Paciente”, apresentado na 4ª Mostra de Teatro de Rua Lino Rojas na cidade de São Paulo - SP, Vale do Anhangabaú.
Dentre tantas coisas boas, fui impressionado já com a chegada dos artistas no Vale, os figurinos alegres e bem elaborados, as musicas tocadas ao vivo e a criativa forma de carregar seus instrumentos, já dispostos para tocar, pude apreciar uma sofisticada proposta de estrutura narrativa destacada de todos os outros elementos bons contidos na peça.
No primeiro momento, a peça é apresentada aos espectadores como uma simples forma narrativa, um ator interpretando um palhaço, pouco texto literário e muito texto gestual. Assim segue durante a primeira cena. O que tem isso de sofisticado? Nada, até que entra um terceiro personagem, um ator interpretando um médico. Ambos com nariz.
Neste momento, é revelada a forma narrativa que vou chamar de desnuda, explicita e assoalhada. Com a entrada deste terceiro, o que era simplesmente um ator interpretando um palhaço se mostra um ator em pleno exercício de distanciamento potencializado. Ator atuando sobre uma palhaço que reafirma sua condição de ator igualando-se aos espectadores e transeuntes daquela praça e todos os seres humanos que se encontram na mesma situação narrada, agora com maior utilização dos recursos literários e sem abrir mão do texto gestual, altamente rico.
O que chama atenção é a forma com que tudo isso acontece, um processo dinâmico de atuação revelando a cada instante o momento da ficção e o da realidade sempre caminhando entre um e outro como quem caminha sobre o fio de uma navalha, prestes a cair e seja qual for o lado da queda, é possibilitado que o público acompanhe e se veja na situação proposta, aumentando possibilidade de reconhecimento e formação de opinião crítica através da peça encenada, que aliás me parece enfatizar essa relação em que o espectador também é ator e vice versa. Real processo de dialética proporcionado pela imagem som e capacidade lúdica dos artistas e do público.
A forma com que o teatro de rua se propõe em sua atuação política reveladora das questões sociais, amplamente relacionada com o espaço e questões estéticas que refletem, quase sempre, a situação do povo brasileiro, esta intimamente ligada numa de contem esta contido na peça em questão. Tomara que sempre encontre nas peças de teatro de rua do Brasil a mesma clareza, empenho e felicidade no trabalho proposto.

Att.

* Flavio Melo, coordenador, ator e diretor do Grupo Teatral Nativos Terra Rasgada, de Sorocaba. Pesquisador de políticas públicas de cultura, teatro popular e projetos de descentralização teatral em Sorocaba. Professor de teatro na ETAC – Escola Técnica de Arte e Cultura de Sorocaba.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Apresentações em Porto Alegre!


Olá amigos, pra quem ainda não viu e para aqueles que querem ver novamente:

quinta-feira, 17 de março de 2011

Dia 22/12/2010 – Quarta-Feira / BANZEIRANDO – Uma Jornada Teatral pelos Rios da Amazônia / Diário de bordo e terra



Eram 11 horas, debaixo de um sol fortíssimo de dezembro iniciávamos a última intervenção do projeto Banzeirando. O cortejo saiu do espaço do Coletivo Difusão, uma entidade que aglutinou muitos artistas manauaras em prol da cultura do Amazonas cuja sede se localiza a uma quadra do largo São Sebastião em frente ao Teatro Amazonas. Tivemos a participação de artistas da cidade também: Diego Batista, Felipe Fernandes, Sabrina Oliveira, ambos integrantes do grupo de teatro Vitória Régia. Diego e Felipe são também do Núcleo de Artes Cênicas do Coletivo Difusão. Caminhamos até o largo tocando e cantando, parte da equipe segurava as faixas do banzeirando, que estavam localizadas na lateral do barco e também trouxemos a faixa feita pela população de Caiçara.
O largo e o prédio do teatro Amazonas estavam cercados de arquibancadas e passarelas para o mega auto de natal da cidade, mas nada tirou o brilho do nosso encerramento com alegria e empolgação. Com as faixas no chão circulamos tocando em volta destas. Como num ritual de passagem agradecíamos a realização do projeto e todas as vivências que tivemos nestes intensos trinta dias. Como um trailer de filme passou toda jornada pela minha cabeça naqueles instantes. Era o final de mais uma etapa marcante no teatro de rua, no teatro da floresta, no teatro brasileiro!
Após a finalização fomos ao Coletivo Difusão trocar as roupas e depois do almoço pudemos relaxar e caminhar pela agradável cidade de Manaus. Estávamos em outro ritmo, talvez o ribeirinho, mais lento e observador, por isso ríamos quando chegamos à zona franca de Manaus e as pessoas enlouquecidas corriam, gritavam, buzinavam ofertas de natal, um consumo desenfreado e o povo banzeiro ali olhando e rindo de tudo. Estávamos em estado de graça. Chegava o final da tarde e antes de irmos para o barco que no período da tarde seria içado para linha de manutenção do estaleiro, voltamos pro Coletivo. Foi louvável o apoio do Coletivo Difusão nesta fase do projeto. Nos ofereceram o espaço do casarão de dois andares pra colocar materiais e bagagens, foi uma hospitalidade de dar inveja aos hotéis da cidade. Após a partida do pessoal do projeto, o Manjericão ficará dez dias em Manaus realizando intercâmbio com oficina de teatro de rua, debates e apresentações gratuitas pro artistas e interessados. Uma parceria combinada em outubro do ano passado entre o Manjericão e o Coletivo. Agradecemos aos amigos já citados, bem como o Allan, a Michelle, a Lídia, o Clayton, o Caio, o Paulo, a Bia, demais colegas do Coletivo e também os achegados do Circuito Fora do Eixo que tem dado o que falar pelo Brasil.
Combinamos as 19:30 no porto para nos deslocarmos de voadeira até o barco, onde haveria o último jantar, era a despedida e entrega dos certificados de participação. Chegando ao estaleiro lá estava o barco Comandante Nossa Senhora Aparecida na carreira de conserto. Carreira são dois enormes trilhos de madeira robusta que se estendem do fundo da água até os motores nas casas da subida da encosta onde puxam as embarcações com resistentes cabos de aço. O barco estava içado para a terra firme como no filme Fitzcarraldo, citado no diário do dia 07 de dezembro. Parecia uma premonição se concretizando.
Após cumprimentarmos a todos, enquanto o jantar não estava pronto, começamos a arrumar as malas que teriam que ser descidas amarradas em cordas devido a altura do barco fora da água. Para alguns só faltava recolher a rede de dormir e logo estávamos todos conversando e recordando a viagem. Nessas horas bateu uma saudade e ecoava na cabeça a velha máxima de sempre: faríamos tudo de novo se fosse possível! Não demorou pra todos pedirem para O Chicão e O Imaginário realizarem o Banzeirando 2, para outra direção, outros rios, etc. Nos divertíamos quando Pão de Queijo chamou para o jantar, o velho e bom amigo Pão de Queijo que deixará saudades também. Descemos e lá estava a mesa posta, como sempre, só que desta vez com mais requinte. Comemos bastante a grande diversidade de carnes e combinações. Após a comilança, Chicão buscou os certificados e começou a brincar entregando um por um aos participantes, não só os artistas, mas também os membros da tripulação que nos aturaram por intensos trinta dias. Depois mais um pouco de prosa com o comandante Zé Ribeiro e partimos para pernoitar na cidade, pois no barco inclinado e sem água não seria possível.
Retornamos ao cais de voadeira comandada pelo Marcelo e Pão de Queijo que já demonstravam tristeza no olhar pela despedida definitiva. A amizade não tem preço nestes caminhos e convívios fecundos que criamos no norte do Brasil. Nós artistas populares temos uma força, uma energia, um poder de transformação que muitas vezes perdemos a dimensão. Quando um ribeirinho mestre navegador diz que jamais esquecerá esta jornada, pode acreditar ele nunca esquecerá e contará essa história até o fim de seus dias, assim como nós. É nesse desvio do tempo que viramos parte da tradição oral de um povo, de uma região, de um tempo que passou e marcou época.
Muito obrigado aos amigos da tripulação do Comandante: Seu Zé Ribeiro, Dona Branca, Vania Passos e sua filha Jordana, Dona Luisa de Carvalho e sua filha Pâmela, o subcomandante Marcelo Nunes e os marinheiros de convés: Seu Zé Teixeira e Rogério Pena - o Pão de Queijo.
Um agradecimento muito especial, fraternal diria, pois fomos uma família de artistas mambembes, aos companheiros deste Bye Bye Brasil flutuante: Anelise Camargo e Samir Jaime, do Grupo Teatral Manjericão, do Rio Grande do Sul; Chicão Santos, Sidnei Oliveira, Thallisson Lopes, Sidnei Dias, do Grupo O Imaginário de Porto Velho; Tancredo Silva, do Acre; Nivaldo Motta, do Amazonas; Léo Carnevale, do Rio de Janeiro; e o multi artista e professor Claudio Vrena, de Porto Velho.
Que fique registrado aqui o agradecimento de toda Trupe Banzeirando a todas as localidades, comunidades e populações por onde passamos, bem como um agradecimento etéreo a floresta, rios e encantados pela recepção fantástica desses humildes artistas de teatro que na medida possível, com grande esforço, procuraram compartilhar do seu trabalho da sua arte. Até a próxima.
Eis o fim de uma jornada e inicio de outras.
Evoé!
Vamo que vamo!!
Márcio Silveira dos Santos
Grupo Teatral Manjericão

quarta-feira, 16 de março de 2011

Dia 21/12/2010 – Terça-Feira / BANZEIRANDO – Uma Jornada Teatral pelos Rios da Amazônia / Diário de bordo e terra





São 5h da manhã e no barco o comandante Zé Ribeiro liga os motores. Partimos para Manaus. Uma viagem tranqüila neste rio cuja dimensão da largura é assustadora, existem partes que quase não se vê a outra margem de tão largo que é! Durante a viagem nos impressionamos com as águas escuras e claras do Rio Amazonas. Em certas partes deste o barco tem que se deslocar de uma margem a outra para escapar do pedral do fundo, o que torna a viagem demorada e cansativa.
Durante a viagem o povo do barco põe em dia as anotações e avaliações, alguns arrumam as malas, outros se exercitam. Mas na grande parte do tempo contemplamos a beleza desta região. No meio da tarde já estamos chegando no estaleiro de Manaus, nos impressionamos com a quantidade de lixo nas águas e margens, eis o sintoma de cidade grande onde o ser humano perdeu de certa forma a noção do estrago que causa a natureza. O comandante e os ajudantes atracam o barco junto a uma balsa no estaleiro.


Combinamos entre os artistas dar um passeio na cidade antes do anoitecer enquanto Seu Zé encontra uma boa proposta de conserto no barco. Saímos de voadeira até o porto de Manaus, caminhamos ate o centro e lá jantamos e conversamos sobre o estranhamento dos enfeites e decorações de natal na cidade. Muitos de nós nem lembravam da questão do natal daqui há alguns dias, um estranhamente total. Confesso que pra mim foi um choque! Andar na zona franca de Manaus depois de quase trinta dias num barco apresentando pra localidades que jamais lembravam desta data adorada pela indústria e o mercado de vendas. Aos poucos nos acostumamos também com a movimentação e aglomeração de pessoas pelas ruas e praças, menos a Anelise.
Voltamos para o barco, nossa última noite dormindo na terceira margem. Amanhã pela manhã última intervenção de rua, no largo São Sebastião em frente ao histórico Teatro Amazonas.
Vamo que vamo!!
Márcio Silveira dos Santos
Grupo Teatral Manjericão

Dia 20/12/2010 – Segunda-Feira / BANZEIRANDO – Uma Jornada Teatral pelos Rios da Amazônia / Diário de bordo e terra


O período da manhã foi curto, pois acordamos tarde desta vez, nos permitimos dormir um pouco mais que o de costume, afinal o projeto foi puxado até aqui e era preciso estar descansados e concentrados para a avaliação ainda na parte da manhã. Após o café subimos para parte de cima do barco, o dia era chuvoso, lonas baixadas nas laterais, cada um na sua cadeira numa roda media. Numa das extremidades havia o banner do projeto e uma filmadora, cada um teve seu depoimento gravado. Depois partimos pra uma avaliação mais coletiva, avaliando os prós e os contras. Tivemos choros e risadas, rememoramos momentos hilários e tristes. Discussão e desentendimento sempre há em qualquer lugar, não seria diferente num projeto desta grandeza e importância. Onde, de certa forma, quase tudo é feito de forma coletiva e o único espaço privado que se tem é o espaço de uma rede de dormir. Mas sobre tudo prevaleceu os bons acontecimentos, pois somos humanos. Lembro que usei duas metáforas para compreensão do que representou para mim os trinta dias de barco pelos rios da Amazônia. Uma foi a já citada outro dia, a importância de se sentir na terceira margem da cena teatral brasileira, onde dentro de um barco pelos rios do norte pude entender o que é fazer teatro nesta região e me entender como artista e a arte que faço. Saio mais lúcido e com maturidade ímpar sobre o país em que vivemos, essa diversidade cultural espantosa que merece respeito e mais atenção. A outra metáfora foi a partir de um breve conto do escritor Eduardo Galeano, onde descreve o momento em que um pai realiza o desejo de seu filho levando-o pela primeira vez para ver o mar. Diante da imensidão do oceano, o filho olha pro pai e diz: - Pai me ajuda a ver? Assim me senti diante desta imensa floresta, dos rios de grandes extensões, da diversidade de etnias e costumes, tradições e estilos ímpares de vida e sobrevivência. Eu sou o menino do conto e agradeço muito a todos por me ajudarem a ver tudo isso e o que mais ainda estiver ao alcance da nossa arte.
O que disse a pouco foi enquanto indivíduo dentro de um coletivo chamado Manjericão, dentro de outro coletivo chamado Banzeirando. Mas tenho certeza a partir dos relatos de Anelise e Samir que para ambos também foi um momento ímpar na vida estes trinta dias. O Manjericão apresentou em todas as localidades centralizadoras de grande porte, realizamos apresentações maravilhosas outras nem tanto, mas faz parte do jogo cênico de nossas vidas. Não depende só do ator mas sim de um conjunto de fatores para uma apresentação ser boa ou não. E tudo pode ser relativo, para o grupo pode não ter sido uma grande apresentação, mas para alguns espectadores pode ter sido até aquele momento, e talvez por um bom tempo depois, algo muito importante em suas vidas. Não temos o parâmetro nem a medida das coisas para saber, eis a efemeridade de todas as coisas humanas e vivas. Em suma foi um marco histórico em nossa existência sem dúvida, mudamos muito a partir daqui, o teatro transforma o artista constantemente!
Após a reunião que terminou de forma monumental e alegre, ríamos quando Chicão deu por encerrada a avaliação e desabou um toró de água incrível. Caiu o céu em forma de chuva. Descemos já com um pouco de frio e lá estava o almoço, um peixe assado na brasa, tambaquis de ótimo sabor. Pela tarde após a descansada na rede começamos a arrumar as coisas pessoais, amanhã chegaremos em Manaus e o Comandante Nossa senhora Aparecida ficará num estaleiro para conserto do equipamento detonado pela árvore gigante. Desde o acidente estamos navegando sem determinadas peças junto as hélices e leme, por falta de tempo e estaleiros bons. Os de Manaus são os melhores. Será uma longa jornada dia inteiro adentro do maior rio do Brasil.
Vamo que vamo!!


Márcio Silveira dos Santos
Grupo Teatral Manjericão

Dia 19/12/2010 – Domingo / BANZEIRANDO – Uma Jornada Teatral pelos Rios da Amazônia / Diário de bordo e terra



Saída ainda de madrugada para chegar cedo a Nova Remanso, um bairro/cidade que está em vias de emancipação, atualmente pertence ao município de Itacoatiara. Embora localizada no imponente Rio Amazonas não apresentou boas condições para nossa embarcação. Foi um parto o Seu Zé Ribeiro conseguir energia elétrica, a futura cidade está mais voltada pra estrada de acesso a capital Manaus, ficando assim de costas para as atividades junto ao rio. No pequeno porto encontram-se muitas embarcações de transporte de animais, com estruturas gradeadas de madeiras e resistentes. Há também um pequeno estaleiro onde se vê barcos em conserto e outros sendo construídos. Ainda pela manhã quando chegamos Chicão deixou uma tarefa para todos, que o coletivo de artistas realiza-se uma averiguação de locais para apresentação ainda hoje a noite. Todos em polvorosa saem para conhecer a cidade, alguns de moto taxi circulam por tudo, outros a pé. Logo lá pelo final da tarde chegamos a conclusão que por ser domingo e uma final de campeonato de futebol tomava conta da cidade o ideal seria realizar um cortejo coletivo pelas ruas próximas ao porto. Chicão concordou e nos preparamos para todos tocarem e cantarem como uma parada de rua e o Léo Carnevale realizaria truques de mágicas em determinados momentos que julgasse melhor e assim fomos. Lá pelas 20h saímos em caminhada da embarcação, todos com camiseta do Projeto Banzeirando mais adereços, instrumentos e folders. Tínhamos a banda, o apresentador Afonso Xodó, as Banzeretes – todas as mulheres do cortejo, o Homem banner – Marcelo, o subcomandante do barco. Paramos em diversos locais, mas cito os de maior relevância. Certo momento estávamos dentro da área de um bar de esquina, sentados três homens bebendo, mais o dono do local. Chegamos, paramos de tocar e ficamos na formação paredão banzeirando, todos de camisetas e sorrisos estampados. Xodó pediu licença e começou uns números de mágica enquanto bebia de seus copos para refrescar a garganta. Mas diante de uma breve conversa um dos senhores, o mais cheio de pose, disse que era ex-prefeito da cidade. Xodó riu com galhardia e seguiu brincando com este fato durante as próximas mágicas, mas no momento que o ex-prefeito foi participar não conseguiu dizer as palavras mágicas. Neste momento um dos meninos da cidade que acompanhava nosso cortejo saltou e disse que sabia as palavras, pois já vira num momento anterior. Xodó o chamou e colocou no ar a seguinte provocação: - Senhoras e senhores!... agora com vocês a prova de capacidade humana deste menino em fazer esta mágica que o ex-prefeito tentou e não conseguiu!!! Bem, a mágica consistia em passar um dado de esponja da mão de uma pessoa para mão de outra pessoa, dizendo as palavras mágicas: Humanium.... Erare.... est! Era sempre uma reprodução, Xodó falava primeiro e depois a pessoa dizia igual na entonação de mistério e magia, circulando uma das mãos no ar por cima da outra. Para surpresa de todos o menino reproduziu com uma destreza vocal melhor até que o Afonso Xodó. Foi sensacional aquele momento.
Seguimos o cortejo e havia um grupo de meninas que acabara de sair do culto de uma igreja próxima ao bar. Xodó convocou todas para um número embaixo das luzes do poste. Elas aceitaram e de longe poderia se ver um grupo de pessoas (artistas e público) numa linda imagem poética embaixo de uma única luminária em meio ao escuro da rua. A última intervenção foi outra vez uma grande coincidência. Noutro bar onde muitos bebiam a vontade e felizes da vida com som mecânico no volume máximo. Chegamos de mansinho, alguém pediu pra baixar o som, a dona do bar desligou, pois queria ouvir também os músicos e o palhaço mágico. Léo sentou-se a mesa mais cheia de pessoas e logo descobriu que o motivo da comemoração era a vitória no campeonato de futebol, tínhamos ali na mesa boa parte do time campeão e o goleador do torneio. Léo se grudou no grupo de jogadores e arrebentou, foi aplaudido de pé. Saímos em fanfarra e logo encerramos os trabalhos, agora só em Manaus para encerramento do projeto.
Mas mesmo que todo artista embora ame sua arte e tenha prazer em fazê-la ainda sim ela é um trabalho e ele merece outro tipo de distração, resolvemos ir num forró. Após o banho subimos o barranco e comemos uma iguaria especial da região, as bananas fritas e salgadas. São bananas verdes cortadas ao cumprido em tirinhas bem finas, após fritadas acrescenta-se um pouco de sal, ficam crocantes e saborosas muito degustadas por esta época. Depois todos de moto taxi se deslocaram para um sitio onde rolava o tal forró. Local movimentado, curtimos um som que uma banda fazia ao vivo, alguns dançaram, beberam, outros apenas apreciaram a linda paisagem do lago diante da lua cheia que se formava. Não demoramos muito por lá, além do cansaço amanhã permanecemos nesta localidade para realizar uma avaliação coletiva do Projeto Banzeirando – Uma Jornada Teatral pelos Rios da Amazônia.
Vamo que vamo!!


Márcio Silveira dos Santos
Grupo Teatral Manjericão

Dia 18/12/2010 – Sábado / BANZEIRANDO – Uma Jornada Teatral pelos Rios da Amazônia / Diário de bordo e terra



Dia clareou e o barco Comandante Nossa Senhora Aparecida já roncava há horas os motores no Rio Madeira em busca da Cidade de Urucurituba. Durante o percurso de aproximadamente 6h, eu e Anelise conversamos demoradamente com o Sidnei Oliveira e Sidnei Dias sobre a Antropologia teatral, sobre a preparação do trabalho do ator, independente de qual tipo de teatro fará e sobre as pesquisas do Grupo Manjericão e do Grupo O Imaginário. Trocávamos idéias sobre muitas teorias: Presença cênica, ações psicofísicas, transiluminação, corpo sem órgãos, biomecânica, commedia dell’arte, distanciamento, didática da cena, a explosão do espaço cênico (rua), etc, etc. Obviamente muitos caminhos semelhantes e muitas vontades idênticas, tanto na teoria/prática quanto nas dificuldades de manter um trabalho continuado, pois para sobreviver é necessário ter espaço físico e correr atrás de editais, prêmios e eventos cênicos.
Chegamos as 11h em Urucurituba, logo se avistava um cemitério caindo no rio Madeira. A cidade era mais uma que o rio engolia com o passar dos anos e as cruzes ficavam rentes ao barranco que desmorona lentamente. Aportamos numa balsa enorme que servia de estação para os recreios e mercadores, chamada de “Abrigo Municipal João Coutinho”. O incrível era que a balsa de grandes proporções estava amarrada somente por uma corda azul grossa com alguns nós a uma frondosa árvore em cima do barranco de trinta metros de altura, como se fosse um grande laço de fita sobre posto encima de uma grama verdinha. A balsa boiava sobre enormes troncos corroídos pelo tempo e amarrados a ela haviam mais de uma dúzia de barcos incluindo o nosso. Em tempos de enchente se durante o sono de todos um dia o barranco levar a árvore levará também a balsa e as embarcações que nela estiverem amarradas. Impressionante!
Pulamos do barco para conhecer a cidade que a população está abandonando. Fomos descobrir o porquê e logo soubemos por alguns moradores que era devido ao desmoronamento e falta de trabalho. Mas outros disseram que o governo do Amazonas está desenvolvendo a cidade de Urucurituba Nova, junto ao rio Amazonas, que possui ligação por terra a capital Manaus, gerando assim mais oportunidade de empregos e circulação de mercado. Outros que insistem em ficar na cidade citam que na verdade é uma estratégia pra tirar o povo da cidade velha porque haverá a extração de um minério muito valioso, que ainda é pouco conhecido. Aqui se mostra uma situação complexa, os moradores até disseram o nome do minério que realmente é estranho, nunca ouvimos falar, mas que terá grande valor no mercado futuro. Algo que foi descoberto primeiramente via satélite e depois confirmado que o melhor deste minério no mundo todo está exatamente embaixo desta cidade. O governo já estava com um projeto em pauta para estrada de Urucurituba velha. Mas qual será a verdade?
Na caminhada de produção e definição do local das apresentações fomos visitar o cemitério, lá percebemos a presença fortíssima da comunidade judaica, a julgar pelas lápides e ferragens bem trabalhadas em estilo judaico. Depois quando fizemos uma roda de memória no barranco junto a árvore da corda azul, um senhor dos mais antigos por ali, disse ser descendente de judeus que ajudaram a fundar a cidade. Era mais uma comunidade em busca de trabalho e paz. Encontramos também algo raro, havia numa casa estampado no alto da parede da frente um distintivo do time do Grêmio, com mais observação notei dentro da casa que havia na geladeira o maior adesivo que já vi até hoje do Grêmio, do tamanho da porta desta. Fui ver se conversava com o morador, mas não consegui. No mais a cidade era constituída de igrejas das mais diversas religiões, uma agencia de correios, o posto de saúde Santa Verônica que raramente tem atendimento, um mercado de médio porte, muitas crianças e urubus e um clube.
Após o almoço, à base de peixe, conversamos com as crianças da comunidade, alguns haviam almoçado no barco. Léo pegou meus mapas do norte e deu uma aula para elas sobre a itinerância do Banzeirando pelos rios até ali. No meio da tarde chegou um barco de passageiros e mercadorias, em meio a toda movimentação surgiu um menino vendendo bolo de macaxeira, uma delicia, foi nosso café da tarde. Enquanto seu Zé Ribeiro eviscerava e cortava em filés uma grande quantidade de peixes Tigre, de tamanho de um metro cada, ficamos impressionados que os adolescentes, em média de 15 anos, foram os carregadores dos fardos de pacotes de arroz, açúcar, farinha que o recreio trouxe para o mercado. Subiam a escadaria muito alta com fardos de 60 quilos nas costas. Na seqüência Chicão chegou com a definição do local das apresentações do Léo e do Manjericão para a noite, no Centro Social João Soares Ferraz. Começamos a nos preparar no cair da tarde, enquanto os trabalhadores da cidade voltavam com suas voadeiras, quando ficamos prontos já em inicio de noite notava-se umas trinta voadeiras estacionadas junto a balsa.
Chegada a hora, em torno de 19h, Léo começou sua apresentação, depois as 20h foi o Manjericão num calor escaldante. O Centro Social João Soares Ferraz que era constituído de um enorme salão cercado por tabuas altas e algumas lâmpadas comuns. Um detalhe interessante era que tínhamos horário para término devido a uma festa de aniversário ou casamento na casa em frente, pois o barulho e ajuntamento, segundo a moradora da casa e líder comunitária, atrapalhariam a festa que se estendia na rua em frente à mesma. Assim cumprimos e às 21h tudo havia terminado. O curioso da apresentação do Manjericão foi que na cena da mulher barbada, feita pela Anelise, o escolhido para ser o enamorado de Zuleica Peludiskaya, cuja metade do coração ela sempre deixa com este, foi o gremista da casa que mencionei anteriormente, foi muita coincidência. Outro fato curioso, mas de risco dos atores era a quantidade de insetos junto às lâmpadas do salão, mas em especial duas que ficavam exatamente em cima da roda. Tínhamos que ter o cuidado para falar pouco e com projeção de voz comprimida cada vez que estivéssemos embaixo delas, se abríssemos demais a boca era possível engolir insetos e se engasgar, digo isso porque em determinamos momentos no inicio da apresentação aconteceu exatamente isso. Foi uma grande dificuldade.
Ofício cumprido fomos para o barco que logo pela manhã entraríamos no Rio Amazonas finalmente, deixando o Rio Madeira para trás.
Vamo que vamo!!


Márcio Silveira dos Santos
Grupo Teatral Manjericão

Dia 17/12/2010 – Sexta-feira / BANZEIRANDO – Uma Jornada Teatral pelos Rios da Amazônia / Diário de bordo e terra



Pela manhã do 26º dia acordamos com um grande burburinho de muitas pessoas negociando peixes em duas embarcações bem próximas. Logo descobrimos que se tratava de um barco comprador de peixes para a cidade de Porto Velho, o Riso do Mar I, ao lado estava o barco Novo Kim que fornecia peixes Tigre de até dois metros de comprimento, são da espécie sem escamas de couro branco acinzentado cheios de manchas pretas como tigres. Esta negociação ocorria numa lateral do Riso do Mar I enquanto que na frente deste chegavam os peixes com escamas, grandes Tucunarés de até dez quilos, trazidos do mercado da cidade, onde estavam estocados por outros pescadores. O curioso, além das dimensões dos peixes e a forma de manter congelados por dias seguidos no porão do barco abarrotados de gelo, eram duas crianças de descendência indígena. No meio de tanto peixe e muitos homens negociando as cargas que eram jogadas pra lá e pra cá, lá estavam duas indiazinhas degustando potes de iogurte de morango, se lambuzavam com gosto e pediam mais para suas mães que colocavam as conversas em dia enquanto embarcavam as mercadorias para alimentação da tripulação.
Chicão saiu cedo e conheceu um escritor do Amazonas. Marcou uma roda de memória com o Grupo imaginário e meio dia voltaram no barco com o ilustre convidado para almoçar conosco. Falamos de histórias recentes da região e da cultura que embora seja rica ainda carece de muito apoio e difusão do que se faz por aqui. No meio do almoço nosso convidado teve que partir, pois os compromissos com a festa da cidade eram grandes.
A tarde um chuvisqueiro tomou conta da cidade, aqueles que aproveitaram pra lavar roupas se complicaram, pois não parou até chegar a noite quando deu uma trégua para podermos nos deslocar até a arena ou anfiteatro como chamam aqui, mas é semelhante a uma arena de apresentação do Boi. Chegamos lá e observamos o Bosco apresentando uma por uma das atrações. São bandas que concorrem em sua maioria com musicas relativas à floresta e preservação da natureza. Realmente a cidade é bem cuidada e seu povo é culto e ambientalista. No encerramento do Festival houve o show da Banda de Manaus, a Badawera, fiquei impressionado com o vigor físico das bailarinas e bailarinos, uma energia contagiante. Foi só terminar o show da Badawera despencou um forte chuvisqueiro novamente. Nos deslocamos pro barco empapados de água.
Amanhã vamos pra Urucurituba, conhecida como Urucurituba velha, pois a população está abandonando.
Vamo que vamo!!



Márcio Silveira dos Santos
Grupo Teatral Manjericão

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Dia 16/12/2010 – Quinta-feira / BANZEIRANDO – Uma Jornada Teatral pelos Rios da Amazônia / Diário de bordo e terra


25º dia da Jornada. Hoje apresentaremos juntamente com Nivaldo fazendo o Dorminhoco. Fiquei pela manhã organizando o material do espetáculo enquanto o pessoal da produção foi na rádio dar a entrevista e falar do projeto. Meio dia veio almoçar com a Trupe Banzeirando o Bosco Borges, artista e produtor cultural da cidade de Itacoatiara que fica algumas horas de Manaus. Bosco é velho conhecido nosso e está na cidade para ser o apresentador do Fecanon, fugiu da agenda de divulgação e veio prosear durante o almoço e marcar apresentações em Itacoatiara no dia de Natal. Chegando à tarde, lá pelas 13:30 desabou uma chuvarada que só estancou lá pelas 16h. Material pronto e logo Chicão, Thallisson, Sidnei Oliveira, Sidnei Dias, Vrena e Léo se deslocaram com equipamento de som pro local das apresentações, a praça em frente a igreja matriz.
Subimos a escadaria de Nova Olinda do Norte com um vento forte, olhamos o horizonte notamos que o céu estava mais escuro e sem estrelas, poderia chover novamente! Caminhamos na avenida principal convidando as pessoas, chegando à praça esperamos o Dorminhoco terminar a sua intervenção. Como o tempo estava em suspenso e a Ane não estava se sentindo muito bem, resolvemos cortar os números circenses do inicio, pois estes exigem mais vigor físico e o tempo seria menor em caso de chuva. Começaríamos então direto na peça teatral, porque São Pedro, assim como em Caiçara, estava mais uma vez olhando pra nós.
Saímos em cortejo e invadimos a praça central, entramos na roda de pessoas que o Dorminhoco já estava e juntamos com o público que trazíamos na bandalheira produzida pelos palhaços. Apesar do tempo estranho de uma noite fria e com nova chuva em formação, no meio da apresentação já tínhamos dobrado o público inicial. Perto do final veio um vento mais forte, mas o público na arredou o pé e manteve-se firme até o final do espetáculo com as gargalhadas provocadas pelo pacientoso palhaço Brigela. Terminamos bem, sem chuva e praça cheia. No final da noite fomos jantar fora e a chuva despencou de vez, a temporada de chuvas no norte se avoluma.
Vamo que vamo!!

Márcio Silveira dos Santos
Grupo Teatral Manjericão

Dia 15/12/2010 – Quarta-feira / BANZEIRANDO – Uma Jornada Teatral pelos Rios da Amazônia / Diário de bordo e terra


Dia nasceu e a viagem para a cidade de Nova Olinda do Norte iniciou. Quase três horas depois chegamos nesta cidade grande. Depois de muitos dias é que vi novamente um avião sobrevoar os céus. Amanheci mal do fígado e estômago devido a algo que comi, fiquei dia todo recolhido num canto só nos líquidos e dieta equilibrada que Dona Branca fazia na cozinha. Mais pessoas ficaram com certos problemas de saúde nesta jornada. Aprendi que deve-se mencionar também um pouco dos problemas que ocorrem com as pessoas quando em viagens longas, pois estas “sujeiras” na escrita mostram que nem tudo foi perfeito ou um paraíso turístico. Além da nossa labuta diária, seja apresentando ou não, todas as atividades provocam cansaço e por vezes a exaustão. Estamos vulneráveis a qualquer tipo de doença pelas dificuldades de se viver por aqui. Não somos como os barqueiros e ribeirinhos cuja resistência é superior a nossa e onde historicamente milhares de pessoas morreram por questões de saúde nesta região, durante o ciclo da borracha e outros períodos que resultaram na formação do povo daqui. Hoje estou mal do estômago e o Léo está com virose há três dias, fica acamado passando da rede pro colchão e vice-versa, Pão de queijo (sempre ele!) providenciou um colchão e colocou a disposição para usar no chão do segundo piso do barco.
Outros colegas também adoeceram antes, no inicio a Anelise sentiu a pressão um pouco baixa e assim ficou num mau estar por dois dias levantando a suspeita de dengue. Depois a certa altura da jornada Chicão sentiu um problema no fígado e por dois dias ficou mais de repouso, também Samir teve febre bastante alta por dois dias devido à garganta. Em seguida foi o Tancredo que chegou a ir ao médico na cidade de Humaitá, foi no posto de saúde e depois de um chá de banco desistiu e foi a um particular (lembrou a peça O Dilema do Paciente) e o diagnóstico foi que estava com anemia. Thallisson contraiu uma virose fortíssima e ficou uns três dias acamado, só conseguindo ingerir caldos e sopas. Já Sidnei Oliveira levou dias para se livrar de uma gripe insistente. Mais tarde Dona Branca contraiu uma virose que até hoje ainda persiste, na seqüência foi nossa cozinheira a Vânia, filha da Dona Branca. Ainda em cuidados Léo já se recupera e logo estará na rua produzindo riso. Várias vezes me lembrei das amigas de Belém, Wlad Lima e Suani Correa, dizendo que era preciso que estivéssemos muito bem preparados física e psicologicamente, com a saúde em dia pra este tipo de jornada. Acredito que estamos, pois foram poucos os casos se levar em conta a grandeza da diversidade climática da região. Há dias muito quentes e outros bem frios, dia ensolarados e outros de chuvas torrenciais. Os chuveiros são sem resistência elétrica, e o banho só com a água do rio, ou seja, gelada na maioria das vezes e sem tratamento . Haja organismo sadio para suportar! Na maioria das localidades existe posto de saúde, mas os médicos só atendem uma vez por semana.
Nesta cidade o pessoal da produção tentou utilizar duas lan houses, mas a lentidão irritante os fez desistir. Embora já estejamos mais próximos da capital as comunicações continuam uma precariedade absurda e mais uma vez me lembro das dificuldades do povo do norte nos processos de inscrição on line nos editais do governo federal, bem como na dificuldade de enviar material pelo correio. O proponente tem que mandar o projeto com muitos dias de antecedência, pois a correspondência vai de barco, juntamente com passageiros e cargas que param de localidade em localidade e muitas vezes há as dificuldades e surpresas que o rio Madeira proporciona. Então se torna absurda a luta de um artista em certas áreas do norte do Brasil, as instâncias promotoras de incentivo a cultura, educação, etc, precisam urgente se voltar para essas especificidades regionais!
À noite eu, Chicão e Nivaldo saímos pra conversar com o secretário de cultura que não foi no horário marcado, pois estava envolvido nas festividades de aniversário de 55 anos da cidade e no 11º FECANON – Festival da Canção de Nova Olinda do Norte. Mas Chicão já tinha conversado com ele e inclusive marcado uma hora na rádio da cidade para falar do projeto Banzeirando e das apresentações amanhã pela manhã. Quando fomos à pizzaria da cidade encontramos os demais colegas e depois de horas passou por lá o secretário que conversou rapidamente sobre as dificuldades da cultura e os projetos que tem para cidade e logo partiu pra casa, com a janta comprada ali.
Pra fechar a noite quando vi estávamos assistindo um filme na TV de um barzinho. Fazia tempo que não assistia um filme, só teatro e mais teatro. O sono bateu e logo todos estavam rumando pro barco. Amanhã é outro dia.
Vamo que vamo!!


Márcio Silveira dos Santos
Grupo Teatral Manjericão

domingo, 2 de janeiro de 2011

Dia 14/12/2010 – Terça-feira / BANZEIRANDO – Uma Jornada Teatral pelos Rios da Amazônia / Diário de bordo e terra

Saímos cedo para Vila Caiçara, pertencente à administração de Borba. A comunidade tem uma rua só, de quatro metros de largura. Não há carros nem motos e carroças, apenas bicicletas. Durante o dia a maioria da população é composta de mulheres e crianças, aliás, muitas crianças mesmo! Logo que chegamos era possível notar a multidão de crianças no barranco nos espiando. Em poucos minutos já estavam grudadas nos produtores, ajudado a divulgar as apresentações às 18h ao lado da Igreja. O entorno da Igreja era bem cuidado e limpo, o piso e a estrutura do largo eram perfeitos para apresentar teatro de rua.
A localidade em determinadas partes ficava aproximadamente sessenta metros de altura do nível da água do Madeira. Um barranco gigantesco para subir com o material. O peculiar daqui é a quantidade de árvores frutíferas plantadas a beira da estrada, todas possuem um dono e os demais cidadãos não tocam nas plantas sem autorização deste. Vrena conseguiu muda da árvore de cuia. Vrena comentou que existe o carité e a cuia. Carité é mais usado para fazer utensílios de cozinha e artesanato, já a cuia, em geral, somente para servir o tacacá e é raro encontrar árvore de cuia em Porto Velho, só a de carité.
Perto do final da manhã quando já estavam agendadas apresentações do Manjericão e do Nivaldo, Chicão me convidou pra pescar ali mesmo do convés do barco, no segundo piso. Mal tinha me preparado com a linha e anzol Chicão já foi puxando o maior peixe pescado na jornada até o momento. Um João Branco de meio metro de comprimento, bem pesado. Logo não demorei pra puxar um também e em pouco mais de uma hora já tínhamos um panelão lotado de peixes grandes. A melhor pescaria que fizemos.
Enquanto estivemos pescando a Anelise e Pão de Queijo foram convidados pela menina Vitória, que não havia desgrudado da Ane durante a divulgação das apresentações, pra registrar a presença de um macaco prego, o “Chico”. Depois foram ver o filhote de veado fêmea “Bibi”, que mesmo solto na mata se acostumou a vir nos fundos do terreno da casa da Jennifer pra tomar mamadeira. Anelise mais tarde me mostrou o vídeo que gravou e lá estava Bibi sendo amamentada numa pequena mamadeira pelas mãos de Jennifer. Uma jovem índia, linda, cuja imagem lembra o estereótipo de beleza da índia brasileira que se mostra nas mídias. É! Caiçara tem muitos encantos. Mais tarde Jennifer e seu namorado foram nos assistir e citamos na cena de entrada a Bibi como atração de equilibrismo entre os animais (que nunca aparecem) do circo.
Após o almoço vi uma cena que me comoveu muito, fez lembrar os tempos de pescaria na infância com meu pai e tios. Havia um pai com quatro filhos, um menino de uns três anos de idade, duas meninas de aproximadamente 06 e 09 anos, e o menino mais velho parecendo ter 13 anos, todos numa canoa junto ao barranco numa área de água rasa. Levantavam a rede de espera que pareceu ter deixado ali a noite toda armada, naquele canto esquecido junto às outras canoas carcomidas pelo tempo. Mas percebi que não era só para recolher os peixes da rede, o pai ensinava os mais novos como levantar e com que velocidade as partes da rede que contem peixe. Precisava certa paciência para manter o peixe preso na malha da rede. Dizia que quando levantar a rede e estiver mais pesada é peixe grande e que esta parte da rede deve ser alçada para dentro da canoa e só então empurrar o peixe com a mão para ele deslizar no nylon da malha no sentido do rabo para cabeça, assim sairia facilmente. Continuava explicando, se houver um galho ou toco de madeira preso na malha deve-se tirar com o mesmo cuidado do peixe para não arrebentar a linha que depois daria muito trabalho pra consertar e não teriam rede na água para pescar.
Bah! Uma lição de vida, transmissão de conhecimento e tudo mais que se possa imaginar. Via brilhar nos olhos do mais novo quando a rede tinha peixe, uma das vezes puxaram um de tamanho médio e ele vibrava naquela pescaria num canto esquecido do Madeira. Assisti ali a uma aula-espetáculo ou talvez a uma oficina ou uma lição de vida que já tinha esquecido. O que presenciei foi os ensinamentos e a memória viva passada de pai pra filhos, e foi sem dúvida parte do Banzeirando.
Lá pelo inicio da tarde chegou ao barco uma liderança comunitária avisando que havia ligado para a central de energia e não voltaria no dia de hoje. O pessoal havia comentado que só existe um lugar em toda comunidade que funciona celular de uma operadora, embaixo da Mangueira em frente à Escola. Chicão pensou melhor e solicitou a ela que nos ajudasse então a divulgar um novo horário ainda de dia, as 16:30.
Chegada à hora de apresentar Nivaldo foi à frente pra começar com o Dorminhoco, logo também estávamos prontos e subimos o barranco que levava primeiro a um campo de futebol com acesso as árvores frutíferas de onde se via a estrada. Aguardamos uns cem metros do local, Chicão veio ao nosso encontro e convidou para irmos ao camarim, o que nos provocou risadas, perguntei onde estava o camarim e Chicão apontou para uns bancos de concreto junto ao barranco, fomos até lá. Era o camarim do Banzeirando. Ali fora estruturado o espaço para ser um mirante da comunidade. Sensacional, estávamos à sombra de mangueiras, cupuaçus e cuias. Podíamos dali ver o Madeira de um lado ao outro e sua extensão até onde a vista alcança, quase infinita. Bem como toda sua imponente correnteza forte com muitos pedrais. Pedrais são aglomerados gigantescos de pedra jacaré nas margens e no meio do rio. Apesar do calor soprava um vento agradável, um camarim perfeito para o teatro de rua.
Enquanto Nivaldo provocava o riso alto da platéia a cada três minutos percebemos o temporal que se armava e a dúvida era se viria ou não em nossa direção. Quando estava imaginando de onde partiríamos com o cortejo vi que um senhor dizia que a chuva não viria pra Caiçara, pois ontem um temporal, que veio de Borba, já havia destruído grande parte da comunidade. Torci pra ele estar certo. Tínhamos um plano B, a sede coberta da vila, um pouco suja, mas poderia acolher o publico tranquilamente. Aproximadamente as 17:30 começamos um pequeno cortejo e logo no inicio eu como apresentador pedi licença a todos: - Senhoras e senhores, crianças e crianços, cachorros e cadelas, demais seres presentes aqui hoje, pedimos licença para apresentar nossos números circenses e o espetáculo O Dilema do Paciente. E se São Pedro resolver participar daremos juntos um jeito na situação.
Dito e feito, em menos de trinta minutos no início da cena da doutora (Anelise) e Brigela (Samir) inicia um chuvisqueiro que logo vira uma chuvarada. Foi uma correria danada, cem metros rasos, eu quando recolhia o tarol vi em meios aos riscos da chuva um menino correndo e rodando no ar o halteres do Herculino e pensava “Caramba! Aquilo é isopor e se solta facilmente!”. Também no meio da multidão o Samir corria gesticulando, como se o Brigela estivesse socorrendo o povo de um tsunami. A Anelise caminhava rapidamente com a sombrinha colorida da Mulher Barbada protegendo a gaita (sanfona) da chuva que agora engrossava de vez. Nem sei quem correu com o bumbo, as mochilas e o estandarte, mas logo estávamos organizando o público na sede coberta enquanto a líder comunitária varria o lixo de uma festa do fim de semana.
Continuamos com a cena da doutora Lascívia, depois a cena do doutor Nervalgina e por fim o monólogo final do Brigela. Salão lotado, a chuva passou e o calor diminuira, encerramos de forma espetacular mais uma peripécia no Banzeirando. Foi literalmente a situação máxima do ditado popular que o teatro de rua conhece muito bem “quem tá na chuva é pra se molhar”. Após a apresentação estávamos encharcados de suor e chuva, mas alegres com o feito. Depois de uma péssima recepção ao projeto na cidade de Borba, agora estávamos de alma e figurinos lavados e o oficio cumprido neste dia atípico.
Voltamos para o barco, pois já escurecia na vila e o blackout era geral. A janta estava pronta e lá estavam fritinhos e crocantes os peixes que pescamos acompanhados de rodelas de limão pra destacar o sabor destas iguarias do local. No convés de cima do barco curtimos uma noite estrelada, toquei umas músicas do raulzito, pra variar, no violão que o Vrena me emprestou pra jornada. Fomos dormir cedo, pelo menos pra mim dormir 21:30 é cedo, mas sem energia elétrica da terra fica complicado, o barulho do motor gerador no barco é altíssimo. Silêncio total no barco e em terra, somente a correnteza do rio a nos embalar, logo todos dormem.
Amanhã vamos para Nova Olinda do Norte, mais uma longa viagem.
Vamo que vamo!!

Márcio Silveira dos Santos
Grupo Teatral Manjericão


Dia 13/12/2010 – Segunda-feira / BANZEIRANDO – Uma Jornada Teatral pelos Rios da Amazônia / Diário de bordo e terra


Dia longo e estranho. Passamos o dia na calmaria das águas, entre 06h até as 16h navegando tranqüilo, no meio do caminho passamos pela famosa localidade do “Cantagalo”, conhecida como a comunidade que foi soterrada ou sugada pelas águas no início do século passado. O mais impressionante é que há realmente no local uma espécie de enseada ou baia com um tamanho exato das comunidades ribeirinhas. Algumas versões falam que no subsolo habitava uma cobra grande que numa madrugada de festejos “exagerados” ela acordou e toda localidade foi sugada pra dentro das águas e somente uma senhora e uma criança sobreviveram. O nome diz o povo daqui que se deve ao fato de ainda hoje se ouve o galo da madrugada cantar embaixo da água.
Passamos tranquilamente pelo Cantagalo, mas foi só chegar à cidade de Borba e sua imponente estátua de Santo Antônio de Borba, lá pelas 16:30, para um temporal intenso desabar. Mal atracamos e logo a chuva e o vento empurravam todas as embarcações contra o barranco alto. Foram quase duas horas de tempo ruim, findado a tempestade o comandante resolveu levar a embarcação para outra parte mais segura do barranco. Mas infelizmente já era noite e o escuro prejudicou muito nossa pernoite na cidade que mais parecia uma cidade abandonada. Somente a missa noturna mostrava a existência de vida humana na cidade naquela hora.
A chuva voltou torrencialmente e a cidade ficou com aspecto sombrio, via-se somente o gigantesco Santo, talvez uns 50 metros de altura, iluminado com luzes de natal. Chicão após analisar que a cidade não proporcionava acolhida aos barcos não disponibilizando pontos de energia elétrica, todos os barcos estavam às escuras, o melhor seria deixar de lado os dois dias na cidade em troca de um dia na vila próxima daqui, a vila Caiçara. Ficaremos esta noite aqui e logo cedo partimos para Caiçara, que o nome me agrada muito, tem nome indígena e não de santo.

Vamo que vamo!!


Márcio Silveira dos Santos
Grupo Teatral Manjericão

Dia 12/12/2010 – Domingo / BANZEIRANDO – Uma Jornada Teatral pelos Rios da Amazônia / Diário de bordo e terra


Dia de comemorar o feito na cidade, churrascada, música e muita pescaria e banho no rio Aripuanã. Povo teatreiro se divertiu muito neste dia escaldante. Baixaram uma bóia do teto do barco e subiram uns oito marmanjos. Pareciam náufragos do teatro de voadeira. Enquanto isso o comandante havia mandado aos empregados lavarem a embarcação por fora, uma escovação danada ficou brilhando o casco. Dia todo nesta função, uma escovada e um mergulho.
A Anelise veio me contar que durante a noite um senhor, ao saber da nossa presença e função nesta cidade, veio conversar com eles sobre a questão das hidrelétricas. Esta é uma questão pouco abordada pela população ribeirinha. Este senhor que faz parte de uma empresa de energia disse que o povo anda meio descontente, mas tardiamente, pois já concordaram na construção das duas hidrelétricas em troca das promessas de emprego, que na verdade poucas se efetivaram. Mas esquecem da questão do impacto ambiental que causarão, desde a seca do rio até a dificuldade de sustentabilidade de muitas cidades do Madeira e afluentes. A previsão de inauguração da primeira será no final de 2011. Disse este senhor que seria muito importante falarmos destas questões com nosso público. Mas entendemos que este assunto é muito delicado para um grupo chegar, indagar, discutir e depois partir tendo ficado poucas horas na localidade. Mas na medida do possível conversamos com os moradores por onde passamos.
Chegada a hora da nossa apresentação São Pedro resolveu tomar a cena com um leve chuvisqueiro que depois de engrossar voltou a diminuir, mas foi o suficiente para tomarmos a cena na praça com um cortejo. A apresentação foi tão boa e de grande participação de público que se alongou com improvisos de todos. Na seqüência veio a Guadalupe de Monteserrat, esmerilhou com suas piadas e histórias. No final agradecemos a acolhida sublime da cidade e também do comércio ali próximo, que o Chicão havia conversado para baixar o volume (ensurdecedor) e o proprietário achou melhor desligar, que maravilha. Após fomos para o barco, na manhã seguinte partiremos para cidade de Borba.

Vamo que vamo!!


Márcio Silveira dos Santos
Grupo Teatral Manjericão